sábado, 30 de maio de 2009

“Como você se sente como aluno(a) negro(a) nesta escola?”

Escolhi para entrevistar alguns alunos do Curso Técnico em Administração, no qual leciono a disciplina de Informática. Confesso que tive dificuldade em abordar o assunto diretamente, então coloquei a questão no papel e para cada aluno que a entregava expliquei que precisava de ajuda para realizar um trabalho da faculdade sobre questões étnico-raciais na escola atualmente. Os quatro alunos que responderam as perguntas têm entre 17 e 20 anos.

Respostas:

1) Me sinto feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por estar num curso técnico e ser negra. Triste porque muito poucos negros entram no técnico e menos ainda numa faculdade. Mas com fé, esforço e dedicação buscaremos nosso lugar na sociedade e mostraremos que somos capazes de estudar e ser aprovados sem as cotas.

2) Me sinto bem na maior parte do tempo, sou olhada e admirada pela maioria das pessoas. Mas sinto que às vezes sou julgada pela minha cor, já fui discriminada várias vezes nesta minha vida. Sempre que alguma coisa desaparece na sala de aula, como aconteceu com o celular da Júlia em março, sinto que as pessoas desconfiam de mim em primeiro lugar, depois quando aparece o culpado elas ficam com cara de bobas porque não era um negro.

3) Hoje sou mais tranqüilo quanto aos apelidos e até ofensas que escuto, mas sofri bastante quando era criança, brigava muito na escola e batia em todo mundo que falasse da minha cor, do meu nariz ou do meu cabelo, eu não me aceitava muito bem sabe? Sempre tem aqueles colegas de aula que se acham melhores que os outros, os brancos acham que são melhores só por causa da cor da pele, quero ver se algum deles me ganha na capoeira. Eu quero respeito em todo lugar que eu vá.

4) Muito bem! Mas acredito que sou respeitada porque sou estudiosa e só tiro notas boas, não pela minha cor. Não me sinto ofendida se alguém me chama de negra, é a minha cor e tenho orgulho disso. Discriminação eu já senti quando eu era bem pequena e um coleguinha de aula me chamou de negra suja e fedorenta, isso era uma mentira e me magoou muito, até hoje não esqueci aquelas palavras. É muito duro ouvir coisas mentirosas a seu respeito e isso dói em pessoas negras, brancas ou índias. Qualquer pessoa que tenha sentimento devia pensar bem antes de julgar as outras só pela sua aparência.
Dar voz e vez aos alunos, prestar atenção quando colocam seus sentimentos de alegria, de mágoa e de superação foi um momento de exercitar a escuta para mim, de me dar conta da minha ignorância. Habituada a prestar atenção no aprendizado do aluno, se ele está aproveitando o que ensino, utilizando para seu crescimento pessoal e profissional; perdida na correria do dia a dia, às vezes não percebo as individualidades dos alunos, seus valores, sonhos e expectativas. E num movimento simples como este, concluo que preciso aprofundar meus conhecimentos sobre a história e a cultura dos africanos e afro-descendentes, só assim poderei combater a discriminação e o preconceito em sala de aula, buscando a conscientização de que as diferenças enriquecem a vida e qualificam nossas relações em sociedade.

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